DIA MUNDIAL DO CORAÇÃO

Setembro 29, 2021
Posted in Artigo -

DIA MUNDIAL DO CORAÇÃO

A celebração do Dia Mundial do Coração no dia 29 de setembro pretende promover a sensibilização pública para as doenças cardiovasculares, que constituem a principal causa de morte, não só em Portugal, como em todo o mundo. No nosso país as doenças cardiovasculares são responsáveis por mais de um terço da mortalidade total. Não podemos ignorar que antes da pandemia morriam, em média, cerca de 100 pessoas por dia, devido a patologia cardiovascular. Nestes dezanove meses de pandemia esse número ainda foi superior por razões que vamos enumerar.

Muitos doentes com problemas graves de saúde, em grande parte por medo de contágio por Covid-19 e por uma interpretação errada das ordens para “ficar em casa”, evitaram ou dirigiram-se em fases tardias das suas doenças às unidades de saúde e aos hospitais, o que contribuiu seguramente para o aumento da mortalidade global, observada não só em Portugal, como noutros países. É um facto que durante o primeiro ano de pandemia, a procura das urgências e das consultas médicas, como foi largamente noticiado, diminuiu de forma acentuadíssima. Muitas destas mortes podiam ter sido evitadas com a instituição, no momento devido, de cuidados médicos preventivos e especializados.

É reconhecido que uma das grandes conquistas do século XX foi o aumento espetacular da esperança de vida. Refira-se que esta, em Portugal, cresceu cerca de 30 anos nos últimos 50 anos do século XX e mesmo nas duas primeiras décadas deste novo século, continua a aumentar. Verifica-se que, em média, durante os últimos oitenta anos, a esperança de vida aumentou cerca de dois a três anos por cada década. Lembramos que no início do século XX a esperança de vida era de 47 anos, e atualmente ultrapassa os 79 para os homens e os 84 para as mulheres.

Este aumento da esperança de vida da população portuguesa começou por ser devido essencialmente à redução das doenças infeciosas, graças aos progressos da saúde pública e da medicina clinica, para o que o contribuiu significativamente a descoberta das vacinas e dos antibióticos. Nas últimas décadas, esse aumento da esperança de vida está a dever-se sobretudo aos progressos da cardiologia, que tem conseguido evitar grande número de enfartes do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais, através do controlo dos fatores de risco, como a pressão arterial, o colesterol, a diabetes e o tabagismo.

No Dia Mundial do Coração chamamos a atenção para que a inegável gravidade da pandemia Covid-19, não deve obscurecer outras pandemias, como a das doenças cardiovasculares, que devido aos progressos da medicina, são hoje em dia, como já referimos doenças em grande parte, não só evitáveis como controláveis. Adicionalmente, a atual situação cardiovascular tem sido agravada pelas complicações cardiovasculares causadas pela infeção pelo Sars-Cov-2, nos casos em que ocorre uma resposta imunitária excessiva. Em consequência, estes doentes podem vir a sofrer de enfartes do miocárdio, arritmias e miocardites, que podem mesmo evoluir para insuficiência cardíaca e até morte súbita.

A adoção de medidas de estilo de vida saudável e o controlo dos fatores de risco têm um efeito benéfico duplo, ao contribuir não só para reduzir as doenças cardiovasculares, como também para ajudar na luta contra a Covid-19. Os doentes idosos com fatores de risco controlados (hipertensão, obesidade e diabetes) têm, não só menor risco de sofrer de complicações da Covid-19, como de morrer de doença cardiovascular.

Infelizmente continua a verificar-se uma baixa procura de apoio médico, pelo que se torna necessário, nomeadamente desenvolver campanhas que esclareçam a população sobre a necessidade de continuar a prevenir e controlar as doenças cardiovasculares, que são a pandemia que mais mata em Portugal. Não é demais insistir que, no caso de se contrair a Covid-19, estar o mais saudável e controlado possível da doença cardiovascular, ajuda a resistir melhor ao vírus. Nesse sentido, os doentes devem continuar a tomar a medicação cardiovascular e visitar o médico com a mesma regularidade que faziam antes da pandemia viral surgir.

Para terminar, lembramos que, pelo facto de haver uma pandemia de Covid-19, não vão deixar de continuar a ocorrer pandemias ainda mais mortais, como, o enfarte do miocárdio, o AVC e a insuficiência cardíaca, que podem e devem ser mitigadas pela prevenção e controlo dos fatores de risco.

Neste Dia Mundial do Coração, em que muitos dos nossos entes queridos ficaram isolados de amigos, familiares e até de médicos, a frase-chave é “Usa o teu coração para te ligares aos outros”, o que, embora com limitações, pode ser feito em segurança pelo recurso às redes digitais. Numa altura em que ainda estamos a sofrer e a lutar contra a Covid-19, é muito importante não esquecer que a pandemia cardiovascular continua a ser a pandemia que mata mais pessoas em Portugal, pelo que não podemos ignorar a importância para todos da adoção de estilos de vida saudáveis e do controlo dos fatores de risco para a prevenção cardiovascular.

Almada, 29 de setembro de 2021

Prof. Doutor Manuel Oliveira Carrageta

Presidente ICPA

Comments (6)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.